Ouvi o vento nas árvores, calado,
ouvi o canto dos pássaros ao longe,
ouvi a chuva lavando o corpo velado.
Senti o cheiro do afeto e das flores,
o cheiro dos bichos, do mato, da terra,
o cheiro do esgoto, da vida, suas dores.
Vi o mar, o sol sangrando nas nuvens,
vi a semente romper, a árvore erguer-se,
vi o dia nascer sem pedir licença.
Comi o lanche de esquina, apressado,
comi o fruto no galho, ainda quente,
comi a ceia de Natal, convidado.
Corri a pé, de ônibus, de avião,
corri dos medos que me alcançaram,
corri por correr — e corri em vão.
Dormi na rua, buzinas e luz da lua,
dormi no chão, colchão de papelão,
dormi como rei no quarto que era meu.
Sonhei acordado, de pé, cansado,
sonhei que voava e depois que caía,
sonhei ser feliz sem saber porque.
Trabalhei no que o corpo detestava,
trabalhei no que a alma me pedia,
trabalhei o dobro do que me restava.
Senti a dor, o prazer, ossos partidos,
senti o gosto do sangue e da luta,
senti a derrota — e venci meus sentidos.
Sofri a escuridão e a ilusão,
sofri a espera, o vazio, o abandono,
sofri o excesso, o sucesso, a solidão.
Chorei a perda, o adeus, a presença,
chorei o riso que nunca chegou,
chorei o tempo que foge e não pensa.
Caminhei sozinho, ao léu, ao relento,
caminhei com amigos, entre riso e canto,
caminhei sem mapa, sem rumo, sem centro.
Amei, fui amado, fui mal compreendido,
amei em silêncio, com tudo a perder,
amei o impossível — e, por amar, resisti.
Escondi a infância num porão estreito,
escondi a alma num cofre com defeito,
escondi todas as chaves no meu peito.
Aprendi com o tempo, sem mapa nem norte,
aprendi com a queda a me erguer mais forte,
aprendi que a vida é acaso e é sorte.
Abracei o medo, me abraçou a morte,
abracei a solidão na multidão,
abracei o instante — e segui adiante.
Vivi metade da vida, perdida,
vivi a chegada sem ver a partida,
vivi. Apenas vivi. Essa é a vida.
Souza Cruz