
O senhor Jó
Data 16/01/2026 12:52:12 | Tópico: Poemas
| Uma bacia cuspida, sangue, dentes e bílis. O senhor Jó deixou um rasto de morte atrás de si. Na mesinha de cabeceira: um lenço ensanguentado, uma moeda, papel rasgado. Um bilhete de comboio.
Quando a filha mais nova o encontrou, chamou a ambulância e fechou a casa. Velaram o senhor Jó na mortuária branca ao lado do cemitério. Crise de bílis ou pâncreas. Talvez uma outra víscera. Deixei um postal no memorial – um dos poucos objetos por que ainda mantinha afeição. Detestava flores. Também detestava caixões e velórios; a pele dos mortos.
Cliente desde sempre. Dos primeiros. Sentirei a sua falta. O café oferecido, as conversas com o canário, o doce de abóbora e as queijadinhas. Pedia que me sentasse no sofá e discursava. Os serviços sexuais cederam, há muito, lugar a conversas filosóficas – sexo e filosofia são velhos companheiros de percurso, na verdade. Citava Sartre, sobretudo. Lembro-me da foto do francês, um olho para cada lado, gabardina bege; um livro gasto, a lombada rasgada, o título em francês: L'Être et le Néant. Pagava para que os dias não o inundassem com o nada da solidão.
Por vezes fervia-lhe uma sopa. Servia-lhe chá quando me pedia. Tossia incessantemente devido à civilização e à religião. Incomodava-o o homo sapiens.
Sentirei falta do senhor Jó; das laranjas na taça da fruta, das maçãs abandonadas na mesa, do xadrez começado trinta anos atrás com o primo, morto num acidente a caminho das ruínas romanas de Tróia.
A civilização ritualizou-lhe, enfim, a morte.
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