Uma bacia cuspida,
sangue, dentes e bílis.
O senhor Jó deixou um rasto de morte atrás de si.
Na mesinha de cabeceira: um lenço ensanguentado, uma moeda, papel rasgado.
Um bilhete de comboio.
Quando a filha mais nova o encontrou,
chamou a ambulância e fechou a casa.
Velaram o senhor Jó na mortuária branca ao lado do cemitério.
Crise de bílis ou pâncreas. Talvez uma outra víscera.
Deixei um postal no memorial – um dos poucos objetos
por que ainda mantinha afeição. Detestava flores.
Também detestava caixões e velórios; a pele
dos mortos.
Cliente desde sempre. Dos primeiros.
Sentirei a sua falta.
O café oferecido, as conversas com o canário,
o doce de abóbora e as queijadinhas. Pedia
que me sentasse no sofá e discursava.
Os serviços sexuais cederam, há muito, lugar a
conversas filosóficas – sexo e filosofia são velhos
companheiros de percurso, na verdade.
Citava Sartre, sobretudo. Lembro-me da foto do francês,
um olho para cada lado, gabardina bege; um livro
gasto, a lombada rasgada, o título em francês: L'Être et le Néant.
Pagava para que
os dias não o inundassem com o nada da solidão.
Por vezes fervia-lhe uma sopa. Servia-lhe chá quando me
pedia. Tossia incessantemente devido à civilização e
à religião. Incomodava-o o homo sapiens.
Sentirei falta do senhor Jó;
das laranjas na taça da fruta, das maçãs abandonadas na mesa,
do xadrez começado trinta anos atrás com o primo, morto
num acidente a caminho das ruínas
romanas de Tróia.
A civilização ritualizou-lhe, enfim, a morte.