
Confissão silenciosa
Data 18/01/2026 11:59:30 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| Não disse palavra. Mas o mundo inteiro ouviu. Havia um rumor antigo na minha alma, Como quem empurra portas fechadas E encontra apenas o eco da própria respiração. A ilusão era minha — sempre foi. Nenhuma voz me enganou, Nenhum olhar prometeu o que não podia cumprir. Fui eu quem enfeitou o abismo, Pintou pontes onde só havia precipício, E chamou de caminho aquilo que era só vertigem. Quantas vezes o desejo costurou milagres Com linhas que não existiam? Quantas manhãs acordei jurando Que o impossível cedo ou tarde iria ceder? Não cedeu. Eu cedi. E na hora em que a verdade finalmente chegou, Não houve gritos, nem tempestades, Apenas um leve estremecer, A nudez de um pensamento cansado, E um silêncio tão pesado Que quase fazia barulho. Minha confissão não coube na voz. Coube apenas em mim: O reconhecimento de que a fantasia era obra-prima, Mas o artista era cego. E foi assim que aprendi, tarde, mas inteiro, Que às vezes a mentira mais cruel Não vem do outro, Vem do amor que inventamos Para não morrer de falta. Poema: Odair José, Poeta Cacerense www.odairpoetacacerense.blogspot.com
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