
Encíclicas
Data 08/02/2026 16:10:59 | Tópico: Poemas
| Desligo lentamente até à invisibilidade dos dias sem nome. Perfumes de Paris, sopros de café, rostos, faces, caras na avenida. Gente distraída da beleza da vida: o céu, as flores, as nuvens.
Murmuro baixinho uma prece. Diluo o detergente. Manhãs solarengas, olor a sabão. Sorrio, silenciosa, os meus dentes doentes. Volto a este corpo dormente.
Manhãs ocas. Cheiro a lavanda.
Varro folhas do jardim, espano o pó poroso das cadeiras; enfio, por fim, luvas grossas de borracha. Esfrego mosaicos. Limpo latrinas. Joelhos crus no chão.
Lembro as contas por pagar; pão, massa, carne, dióspiros na lista do supermercado. Ao patrão não importam pensamentos, ficções, encíclicas.
Suspiro, por fim, à janela aberta.
Borrifo o Ajax. Leio o Sartre.
|
|