Desligo lentamente
até à invisibilidade dos dias sem nome.
Perfumes de Paris, sopros de café,
rostos, faces, caras na avenida.
Gente distraída da beleza da vida:
o céu, as flores, as nuvens.
Murmuro baixinho uma
prece. Diluo o detergente.
Manhãs solarengas, olor a sabão.
Sorrio, silenciosa,
os meus dentes doentes.
Volto a este corpo dormente.
Manhãs ocas. Cheiro a lavanda.
Varro folhas do jardim,
espano o pó poroso das cadeiras;
enfio, por fim, luvas grossas de borracha.
Esfrego mosaicos. Limpo latrinas.
Joelhos crus no chão.
Lembro as contas por pagar;
pão, massa, carne, dióspiros
na lista do supermercado.
Ao patrão não importam
pensamentos, ficções, encíclicas.
Suspiro, por fim, à janela aberta.
Borrifo o Ajax.
Leio o Sartre.