Poemas : 

Encíclicas

 
Desligo lentamente
até à invisibilidade dos dias sem nome.
Perfumes de Paris, sopros de café,
rostos, faces, caras na avenida.
Gente distraída da beleza da vida:
o céu, as flores, as nuvens.

Murmuro baixinho uma
prece. Diluo o detergente.
Manhãs solarengas, olor a sabão.
Sorrio, silenciosa,
os meus dentes doentes.
Volto a este corpo dormente.

Manhãs ocas. Cheiro a lavanda.

Varro folhas do jardim,
espano o pó poroso das cadeiras;
enfio, por fim, luvas grossas de borracha.
Esfrego mosaicos. Limpo latrinas.
Joelhos crus no chão.

Lembro as contas por pagar;
pão, massa, carne, dióspiros
na lista do supermercado.
Ao patrão não importam
pensamentos, ficções, encíclicas.

Suspiro, por fim, à janela aberta.

Borrifo o Ajax.
Leio o Sartre.

 
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Levant
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