
O LASTRO
Data 16/02/2026 15:17:25 | Tópico: Poemas -> Sociais
| I.
Quem quer semente sem ser chão, quer a seiva bruta, sem raiz. Quem quer o braço sem coração apaga o rosto de quem diz. Quem une apenas por moldura a fachada pura, sem o sabor. Já chega e cobra a sua fatura, colhe um fruto sem ter amor.
Colhe ali um pouco, um pedaço — buscando o abraço no cansaço.
II.
Há quem só meça pela casta — o pardo, a tribo cospe, e exclui — conta que não fecha, e não basta, no alvo brasão que não possui. Há quem só calcule a serventia — o cartão, o turno, o que produz — e passe cego em pleno meio-dia, por quem estende a mão — e que conduz.
Colhe ali um pouco, um pedaço — buscando o abraço no cansaço.
III.
Quem, ainda jovem, nada tinha — sem renda, sem lastro, sem oferta — recuou: sem ser alma mesquinha, a fome amarga, e não liberta. Erguer calor sobre o terreno de privação força a franqueza: mergulha o corpo no veneno que a vergonha injeta na pobreza.
Colhe ali um pouco, um pedaço — buscando o abraço no cansaço.
IV.
Seguir em frente é lei que dói na rede que prende pé e mão, quando o querer de tudo corrói o sono, o nome, o coração. Faz do outro um deus de gesso, salvação de um jogo sem saída — num passo cego, sem regresso: perder-se todo, arriscar a vida.
Colhe ali um pouco, um pedaço — buscando o abraço no cansaço.
V.
Quem fez do amor o laço estreito entende que todo nó se solta. Perde quem faz do afeto um pleito — o querer some a cada volta. Se a alegria sempre vem partida e ninguém a entrega por inteiro, o ganho é na carne já curtida: saber de si — lastro verdadeiro.
Colhe ali um pouco, um pedaço — buscando o abraço no cansaço.
VI.
O simples acha par com calma: o rosto encaixa, a voz responde. O raro guarda mais de uma alma e o par que serve se esconde. O toque falha antes do sinal, e a mão que toca não repara. Se perde o fio do essencial aprende que o oco não ampara.
Colhe ali um pouco, um pedaço — buscando o abraço no cansaço.
FINAL
Se ergue buscando ser inteiro — não mais metade, não o talvez. Quer ser brasa, ser pão caseiro, porta que abre mais de uma vez. Encontra em si a própria fundação, o amor fundo — pedra e coração. E aprende a ser seu próprio abrigo, o amor que carregava consigo.
e colhe, enfim, não mais pedaço: o inteiro, no abraço, sem cansaço.
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