I.
Quer semente sem querer chão,
quer a seiva bruta, sem raiz.
Quem quer vigor sem coração
apaga o rosto de quem diz.
Quem se casa só pela moldura
quer fachada — sem morada, sabor.
Cada uma cobra a sua fatura,
e retira a fatia em seu favor.
Colhe ali um pouco, um pedaço —
buscando o abraço no cansaço.
II.
Há quem só meça pela casta
— o pardo, a "sogra" cospe, exclui —
a conta que não fecha, não basta,
no alvo brasão que não possui.
Há quem pese a serventia
— a cifra, o braço, o que produz —
e passe cego, em pleno dia,
por quem procura um fio de luz.
Colhe ali um pouco, um pedaço —
buscando o abraço no cansaço.
III.
Quem, ainda jovem, nada tinha
— sem renda, sem lastro, sem oferta —
recuou: sem ser alma mesquinha,
a fome amarga, e não liberta.
Erguer amor sobre terreno
de privação força a franqueza:
mergulha o corpo no veneno
que a vergonha injeta na pobreza.
Colhe ali um pouco, um pedaço —
buscando o abraço no cansaço.
IV.
Seguir em frente é lei que dói
quando a rede prende sem dar chão,
quando o querer de tudo corrói
o passo, o nome e a razão.
Fazer do outro um deus de gesso,
salvação de um jogo sem saída —
é passo cego e sem regresso:
é perder-se inteiro nessa lida.
Colhe ali um pouco, um pedaço —
buscando o abraço no cansaço.
V.
Quem fez do amor o laço estreito
descobre que todo nó se solta.
Perde quem faz do afeto um pleito —
e o inteiro escapa a cada volta.
Se a alegria sempre vem partida
e ninguém a entrega por inteiro,
o ganho é na estrada percorrida:
saber de si — lastro verdadeiro.
Colhe ali um pouco, um pedaço —
buscando o abraço no cansaço.
VI.
Quem é simples acha par com calma:
o rosto encaixa, a voz responde.
O raro guarda mais de uma alma
e o par que serve se esconde.
O atrito lento, a dor pessoal:
a pressa de um mundo que separa.
Se desencontra do essencial
aprende que a espera não ampara.
Colhe ali um pouco, um pedaço —
buscando o abraço no cansaço.
FINAL
Quem ergue busca ser inteiro —
não a metade, não o talvez.
Quer a brasa e o pão caseiro,
a porta que abre mais de uma vez.
Quem cruza o rio larga o vazio —
e colhe, enfim, não mais pedaço:
o inteiro, no abraço, sem cansaço.
Souza Cruz