
CANTIGA DO CAVALEIRO (trova)
Data 22/02/2026 03:33:15 | Tópico: Poemas -> Relacionamentos
| I.
O menino, desde cedo, ouve a mesma ladainha: princesa presa de medo, monstro, torre e tão sozinha — e o dever do cavaleiro é fazer dela rainha.
II.
Cavaleiro, tem cautela quando a torre te chamar: nem toda princesa é presa, nem todo dragão é par — pode haver entre ambos jogo, um ardil pra te enganar.
III.
E quando a donzela espera quem a venha libertar: pode ser que a própria torre lhe convenha de habitar — e o teu peito é que precisa de alguém pra te resgatar.
IV.
O dragão que ruge e queima pode ser disfarce dela, ou mãe, ou pai, que vigia com veneno na tigela — monstro e princesa, às vezes, moram numa mesma cela.
V.
Não confundas honra e afeto que a honra é lâmina fria quando serve de corrente mantida por serventia — quem se prende por orgulho perde a luz do próprio dia.
VI.
Antes de salvar alguém, vê se sabes te salvar: se o teu corpo traz feridas, não te entregues a um cantar — quem se perde em fantasia já nem sabe onde é seu lar.
VII.
Não te escondas sob a capa de um herói de procissão, nem permitas que te vistam de vilão sem ter razão — cavaleiro que usa máscara já perdeu o coração.
VIII.
Guarda o peito, mas com jeito: nem muralha, nem portão — quem se tranca no castelo vive preso na ilusão de que o frio sem perigo vale alguma salvação.
IX.
Mesmo com a espada gasta e a armadura partida, nem o melhor dos guerreiros vence qualquer investida — não é sorte, é ter firmeza de se erguer com a ferida.
X.
Sê valente, mas com tino, sê leal, mas com clareza: que a coragem verdadeira é medir a fortaleza — segue em frente, passo a passo: com espada e gentileza.
XI.
Mas aqui não tem princesa, nem dragão, nem cavaleiro: ela jura ser rainha, e ele é apenas pedreiro — e esse conto é de novela: o pão custa o mês inteiro.
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