
I.
O menino, desde cedo,
ouve a mesma ladainha:
princesa presa de medo,
monstro, torre e tão sozinha —
e o dever do cavaleiro
é fazer dela rainha.
II.
Cavaleiro, tem cautela
quando a torre te chamar:
nem toda princesa é presa,
nem todo dragão é par —
pode haver entre ambos jogo,
um ardil pra te enganar.
III.
E quando a donzela espera
quem a venha libertar:
pode ser que a própria torre
lhe convenha de habitar —
e o teu peito é que precisa
de alguém pra te resgatar.
IV.
O dragão que ruge e queima
pode ser disfarce dela,
ou mãe, ou pai, que vigia
com veneno na tigela —
monstro e princesa, às vezes,
moram numa mesma cela.
V.
Não confundas honra e afeto
que a honra é lâmina fria
quando serve de corrente
mantida por serventia —
quem se prende por orgulho
perde a luz do próprio dia.
VI.
Antes de salvar alguém,
vê se sabes te salvar:
se o teu corpo traz feridas,
não te entregues a um cantar —
quem se perde em fantasia
já nem sabe onde é seu lar.
VII.
Não te escondas sob a capa
de um herói de procissão,
nem permitas que te vistam
de vilão sem ter razão —
cavaleiro que usa máscara
já perdeu o coração.
VIII.
Guarda o peito, mas com jeito:
nem muralha, nem portão —
quem se tranca no castelo
vive preso na ilusão
de que o frio sem perigo
vale alguma salvação.
IX.
Mesmo com a espada gasta
e a armadura partida,
nem o melhor dos guerreiros
vence qualquer investida —
não é sorte, é ter firmeza
de se erguer com a ferida.
X.
Sê valente, mas com tino,
sê leal, mas com clareza:
que a coragem verdadeira
é medir a fortaleza —
segue em frente, passo a passo:
com espada e gentileza.
XI.
Mas aqui não tem princesa,
nem dragão, nem cavaleiro:
ela jura ser rainha,
e ele é apenas pedreiro —
e esse conto é de novela:
o pão custa o mês inteiro.
Souza Cruz