
Os rapazes diziam que eu não era bom da cabeça
Data 05/03/2026 21:46:44 | Tópico: Poemas
| Mudei-me para Coimbra aos seis anos e não mais vi o meu pai, nem mesmo quando pensava intensamente nele nos bancos de pedra do convento, com o sol a morrer para os lados do rio.
Transportei todos os meus pertences numa mala pequena: duas camisolas velhas, calças cinzentas e dois pares de meias desemparelhadas.
A mãe dizia que talvez o velho estivesse ainda sentado na cadeira do pátio, a dormir, embriagado, sem dar pela nossa falta.
Os rapazes olhavam-me desconfiados. Diziam que eu não era bom da cabeça.
Mas no meu pensamento ficaram os amigos, a areia branca e a casa junto ao mar.
Os pescadores tornaram-se uma névoa marítima, e as redes carregadas de vida uma memória longínqua.
Sentia falta do velho, mesmo quando se zangava, tropeçava nos degraus da frente e me dizia: “malvado, que te bato se te apanho.”
Um dia perdeu-se na floresta e morreu, não se sabe como. Ninguém o autopsiou. Nada de novo traria à ciência, pensei, e nos frascos de vidros amontoam-se fígados estragados.
Pela janela cicatrizada do tempo, via crianças sorridentes a jogar à bola.
Os rapazes olhavam-me desconfiados. Diziam que eu não era bom da cabeça.
Conheci a Maria quatro anos depois de chegar à cidade. Passeávamos junto ao Mondego, corríamos pelas ruas.
Foi a primeira vez que alguém olhou para dentro de mim e percebeu quem eu era.
As raparigas olhavam-na desconfiadas. Diziam que ela não era boa da cabeça.
A mãe trabalhava nas senhoras. Trazia tostões para casa. À noite, costurava no escuro enluarado da cozinha. Depois de paga a renda, dava para a sopa e para côdeas.
Ninguém da família lhe falava. “Não se deixa assim um homem”, acusavam as irmãs, e as primas diziam que ela não era boa da cabeça.
“Um dia fugimos e vamos para a tua casa junto ao mar”, prometia a Maria, quando o outono me deixava triste.
Eu acreditava nela.
Talvez, no fundo, nenhum de nós fosse bom da cabeça.
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