Mudei-me para Coimbra
aos seis anos
e não mais vi o meu pai, nem
mesmo quando pensava
intensamente nele
nos bancos de pedra
do convento,
com o sol a morrer
para os lados do rio.
Transportei todos os meus pertences
numa mala pequena:
duas camisolas velhas,
calças cinzentas
e dois pares de meias
desemparelhadas.
A mãe dizia
que talvez o velho estivesse
ainda sentado na cadeira do pátio,
a dormir, embriagado,
sem dar pela nossa falta.
Os rapazes olhavam-me
desconfiados.
Diziam
que eu não era bom
da cabeça.
Mas no meu pensamento
ficaram os amigos,
a areia branca
e a casa
junto ao mar.
Os pescadores tornaram-se
uma névoa marítima,
e as redes carregadas de vida
uma memória longínqua.
Sentia falta do velho,
mesmo quando se zangava,
tropeçava nos degraus da frente
e me dizia:
“malvado,
que te bato se te apanho.”
Um dia perdeu-se na floresta
e morreu,
não se sabe como.
Ninguém o autopsiou.
Nada de novo traria à ciência,
pensei, e nos frascos de vidros
amontoam-se fígados estragados.
Pela janela
cicatrizada do tempo,
via crianças sorridentes
a jogar à bola.
Os rapazes olhavam-me
desconfiados.
Diziam
que eu não era bom
da cabeça.
Conheci a Maria
quatro anos depois
de chegar à cidade.
Passeávamos junto ao Mondego,
corríamos pelas ruas.
Foi a primeira vez que alguém
olhou para dentro de mim
e percebeu
quem eu era.
As raparigas olhavam-na
desconfiadas.
Diziam
que ela não era boa
da cabeça.
A mãe trabalhava
nas senhoras. Trazia
tostões para casa.
À noite, costurava
no escuro enluarado da cozinha.
Depois de paga a
renda, dava
para a sopa e para côdeas.
Ninguém da família lhe falava.
“Não se deixa assim
um homem”, acusavam as irmãs,
e as primas
diziam
que ela não era boa
da cabeça.
“Um dia fugimos
e vamos para a tua casa
junto ao mar”,
prometia a Maria,
quando o outono
me deixava
triste.
Eu acreditava nela.
Talvez, no fundo,
nenhum de nós
fosse
bom da cabeça.