
Um breve clarão entre dois mistérios
Data 05/03/2026 23:05:48 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| O dia começa antes de nós. Quando ainda somos promessa e sonho, Ele já caminha, indiferente, Vestindo a luz sem pedir licença, Abrindo portas que não vimos. A manhã não nos espera. Ela simplesmente acontece, Como um rio que ignora margens, Como o tempo que não negocia Com nossas vontades tardias. Vivemos na ilusão do comando, Mas o dia nunca foi rédea, É vento, é curso, é queda. Passa por nossas mãos Como areia que não se deixa prender. Ao entardecer, compreendemos: Muito do que fomos já não cabe em nós. O sol se despede sem consulta, E a sombra cresce, serena, Lembrando-nos da nossa medida. E a noite vem, soberana, Fechando o que não terminamos, Silenciando o que não dissemos. O dia termina como começou: Sem jamais ter sido nosso. Ainda assim, há beleza nisso, Naquilo que não governamos, Naquilo que apenas atravessamos. Pois viver, talvez, seja isto: Um breve clarão entre dois mistérios. Poema: Odair José, Poeta Cacerense www.odairpoetacacerense.blogspot.com
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