Poemas -> Reflexão : 

Um breve clarão entre dois mistérios

 
Um breve clarão entre dois mistérios
 
O dia começa antes de nós.
Quando ainda somos promessa e sonho,
Ele já caminha, indiferente,
Vestindo a luz sem pedir licença,
Abrindo portas que não vimos.

A manhã não nos espera.
Ela simplesmente acontece,
Como um rio que ignora margens,
Como o tempo que não negocia
Com nossas vontades tardias.

Vivemos na ilusão do comando,
Mas o dia nunca foi rédea,
É vento, é curso, é queda.
Passa por nossas mãos
Como areia que não se deixa prender.

Ao entardecer, compreendemos:
Muito do que fomos já não cabe em nós.
O sol se despede sem consulta,
E a sombra cresce, serena,
Lembrando-nos da nossa medida.

E a noite vem, soberana,
Fechando o que não terminamos,
Silenciando o que não dissemos.
O dia termina como começou:
Sem jamais ter sido nosso.

Ainda assim, há beleza nisso,
Naquilo que não governamos,
Naquilo que apenas atravessamos.
Pois viver, talvez, seja isto:
Um breve clarão entre dois mistérios.

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

www.odairpoetacacerense.blogspot.com

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@poetacacerense
 
Autor
Odairjsilva
 
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