
Colecionar a Vida
Data 09/03/2026 08:14:08 | Tópico: Poemas
| Um homem passa à frente da casa. O caminhar é torto. O mundo apresenta-se sob duas formas, a primeira e a segunda, grita. Afasta-se. Passa outra vez. O caminhar continua torto. Fuma um cigarro. O mundo apresenta-se sob duas formas, a primeira e a segunda; sabemos tudo da primeira, nada sabemos da segunda, grita.
O homem para. Não se mexe. Transforma-se em estátua, o cigarro ainda arde entre os dedos. Nada sabemos da segunda, grita outra vez. Dentro do peito o esófago é um escaravelho grande e vermelho; estende as patas e crava-se na carne. O homem retoma a marcha. O esófago sangra.
Aproxima-se também uma mulher. Coxeia. Não sabe usar as pernas: uma sobe, a outra desce, como pistões num motor. O pescoço avança antes da cabeça. Ela para diante dele e diz: o esófago é um escaravelho.
À porta da casa um cão uiva. Uma criança espeta um garfo no próprio pescoço. O metal é frio. A criança sangra. Forma-se uma poça vermelha no degrau. O cão lambe as mãos da criança. A criança empurra o metal mais fundo.
O homem cai de joelhos e chora. O joelho esquerdo parte-se. É um som seco, bruto. Diz: há borboletas que voam todo o ano, outras morrem com o frio, e retira do bolso do casaco uma caixa de borboletas.
As borboletas estão mortas. Explica: só se colecionam coisas mortas.
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Colecionar a vida é estúpido.
Ri. A vida não se coleciona, canta em falsete.
O cão ladra. A criança sangra pelo pescoço. Os olhos são azuis.
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