Um homem passa à frente da casa.
O caminhar é torto.
O mundo apresenta-se sob duas formas, a primeira e a segunda, grita.
Afasta-se.
Passa outra vez. O caminhar continua torto.
Fuma um cigarro.
O mundo apresenta-se sob duas formas, a primeira e a segunda;
sabemos tudo da primeira, nada sabemos da segunda, grita.
O homem para. Não se mexe.
Transforma-se em estátua, o cigarro ainda arde entre os dedos.
Nada sabemos da segunda, grita outra vez.
Dentro do peito o esófago é um escaravelho grande e vermelho;
estende as patas e crava-se na carne.
O homem retoma a marcha.
O esófago sangra.
Aproxima-se também uma mulher.
Coxeia. Não sabe usar as pernas: uma sobe, a outra desce,
como pistões num motor.
O pescoço avança antes da cabeça.
Ela para diante dele e diz:
o esófago é um escaravelho.
À porta da casa um cão uiva.
Uma criança espeta um garfo no próprio pescoço.
O metal é frio.
A criança sangra.
Forma-se uma poça vermelha no degrau.
O cão lambe as mãos da criança.
A criança empurra o metal mais fundo.
O homem cai de joelhos e chora.
O joelho esquerdo parte-se. É um som seco, bruto.
Diz: há borboletas que voam todo o ano,
outras morrem com o frio,
e retira do bolso do casaco uma caixa de borboletas.
As borboletas estão mortas.
Explica: só se colecionam coisas mortas.
flores
selos
livros
bicicletas
sinos
caixões
Colecionar a vida é estúpido.
Ri.
A vida não se coleciona, canta em falsete.
O cão ladra.
A criança sangra pelo pescoço.
Os olhos são azuis.