
Atropelamento seguido de hospitalização de um sujeito poético
Data 24/03/2026 21:42:52 | Tópico: Poemas
| Atropelaram o meu sujeito poético na Rua das Flores, como quem sobe à Baixa do Porto. Perdeu a rima e a cadência do verso no baque do acidente, o pobre diabo. Soltaram-se-lhe verbos raros do bolso da pelica: vilipendiar, refulgir, periclitar; assim como adjetivos por estrear: níveo, soturno, alvacento. Fraturaram-se também alguns advérbios de modo, pelos quais nutria particular afeição: cuidadamente, tardiamente, imponderadamente. Deitado no passeio, ergueu os braços, aflito; o sangue escorreu em câmara lenta pela calçada abaixo. Um ajuntamento curioso abeirou-se, e o meu sujeito poético, pobre diabo, num último sinal de consciência, desmaiou dramaticamente, teatralmente – como numa tragédia grega, de resto.
Internado no hospital dos sujeitos poéticos, na zona da Lapa, permanece acamado há trinta dias em cuidados intermédios, com prognóstico reservado. Visito-o diariamente, munido de bloco de notas e esferográfica, para que dite o que ainda pode, e ele, desolado, pouco acerta com o verso. A metáfora brota esdrúxula, bizarra, esconsa, quase inane. “Sou sombra da flamância de antanho”, balbucia. Debita gerânios, hortênsias, rios de prata e nuvens azulinas; nada, no fundo, articulável.
Talvez não deva perturbá-lo, para ver se, por si, num destes dias, reaparece atrevido, audaz, grandiloquente ou, no menor dos males, minimamente funcional.
Desde que foi hospitalizado, a minha vida já não é grandiosa nem intensa como dantes. As frases são o que são, os dias cumprem-se sem fulgor. Ninguém dentro de mim exige êxtase, estertor ou frenesim. E eu sinto-me bem assim.
Devo referir que jamais, em circunstância alguma, terá acesso a estas palavras — a este poema, se tal se pode chamar. Não quero magoar o meu sujeito poético, nem que se sinta abandonado ou desprezado. Tenho a maior estima por ele, juro. Todavia, e penso nisto muitas vezes, o afastamento tem-me sabido muito bem.
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