Atropelaram
o meu sujeito poético
na Rua das Flores, como quem sobe à Baixa do Porto.
Perdeu a rima e a cadência do verso
no baque do acidente, o pobre diabo.
Soltaram-se-lhe verbos raros do bolso da pelica:
vilipendiar, refulgir, periclitar;
assim como adjetivos por estrear:
níveo, soturno, alvacento.
Fraturaram-se também alguns advérbios de modo,
pelos quais nutria particular afeição:
cuidadamente, tardiamente, imponderadamente.
Deitado no passeio, ergueu os braços, aflito;
o sangue escorreu
em
câmara
lenta
pela calçada abaixo. Um ajuntamento
curioso abeirou-se, e o meu sujeito poético,
pobre diabo, num último sinal de consciência,
desmaiou
dramaticamente,
teatralmente –
como numa tragédia grega, de resto.
Internado no hospital dos sujeitos poéticos,
na zona da Lapa, permanece acamado há trinta dias
em cuidados intermédios, com prognóstico
reservado.
Visito-o diariamente,
munido de bloco de notas e esferográfica,
para que dite o que ainda pode,
e ele, desolado, pouco acerta com o verso.
A metáfora brota esdrúxula, bizarra, esconsa,
quase inane.
“Sou sombra da flamância de antanho”, balbucia.
Debita gerânios, hortênsias,
rios de prata e nuvens azulinas;
nada, no fundo, articulável.
Talvez não deva perturbá-lo,
para ver se, por si, num destes dias,
reaparece atrevido, audaz, grandiloquente
ou, no menor dos males,
minimamente funcional.
Desde que foi hospitalizado,
a minha vida já não é grandiosa
nem intensa como dantes.
As frases são o que são,
os dias cumprem-se sem fulgor.
Ninguém dentro de mim exige êxtase,
estertor ou frenesim.
E eu sinto-me bem assim.
Devo referir que jamais,
em circunstância alguma,
terá acesso a estas palavras
— a este poema, se tal se pode chamar.
Não quero magoar o meu sujeito poético,
nem que se sinta abandonado
ou desprezado.
Tenho a maior estima por ele, juro.
Todavia, e penso nisto muitas vezes,
o afastamento
tem-me sabido muito bem.