
XEPA POÉTICA (rev p/ cordel, red. maior)
Data 25/03/2026 04:51:10 | Tópico: Poemas
| I Num dia de muito sol lá chegou um trovador com suas caixas de versos, poemas de todo sabor: — Dez reais! São cem poemas! — Pra senhora e pro senhor!
II
Gritava com voz tão clara, feito o melhor pregoeiro: — Trova, quadra e cordel! — Tem sortido, companheiro! — Soneto! Verso fresquinho! — Leva logo, brasileiro!
III
A venda não se movia, nem alma veio ali: — Se dez reais não convence, deixa eu falar mais aqui: — Quinhentos por dez, irmão! — Baratim que eu nunca vi!
IV
A xepa baixa de preço no ponto de estragar: mas o verso que vai baixo é verso que vai voar! Quem compra nem sabe o preço, quem vende — também, sem par!
V
Quinhentos versos por dez, dois centavos o montão: não tem lógica nem conta, tudo isso sem razão! A vida toda em poema, virando xepa no chão!
VI
Mulher passou com carrinho, nem olhou pro vendedor, o homem leu o jornal, sem ligar pro trovador: criança puxou a saia: — Que livro? Que isso, doutor!?
V
O feirante ao lado riu: — Poesia não enche, não! Melhor banana madura, abacaxi do grandão! Verso nunca faz comida, — O que enche é feijão!
VI
O poeta respondeu com um riso decidido: — Verso é a alma faminta, alimento bem pedido! Rima tem cor, tem aroma, — É o prato preferido!
VII
— Qual o sabor do poema? — É pimenta! É ardor! Só comendo você sabe! Dá calor e tem sabor! Se comer demais, tonteia, estraga o provador!
〔Refrão〕 | — Leva! Leva que tá bom! | leva logo o seu cordel! | Mais barato que cebola, | mais gostoso do que o mel! | Dez centavos, leva tudo! | — Vende verso a granel!
VIII
Uma moça parou, sim, de olhos no trovador: — Vale mesmo a poesia? — É o sal do trabalhador! — E o que é que ela faz? — Ela alegra um sofredor! IX
A moça então falou: — E o preço real, doutor? Arte não tem preço fixo, — Tem sabor! Não tem valor! — E pra quem será então? — Para quem comprar, senhor!
X
O sol foi baixando, sim, a tarde virou serão: restam três livros na caixa, sobra o que vai pro chão! O moço se alegrou: — Quem ama não tem razão!
XI
— Leva de graça! Vem cá! Verso, fruto amassado, doce demais, não se vende, maduro, quase estragado! Erva daninha no asfalto: teimoso e não derrotado!
XII
A lua foi despontando, enquanto a feira se ia: cheiro de manga no ar, misturado com poesia! Com alguns reais no bolso, o moço foi e sorria!
XIII
Ao fim da feira do dia, sobrou poema a rimar: quem que deu e quem levou, — Quem lucrou nesse lugar? Entre o dado e o furtado, quem vai poder calcular?
XIV
O vendedor de melão, a criança que passou, a moça com o seu livro, o que olhou e se mandou: todos, sem saber, cantaram o verso que a vida criou!
XV
O verso vive na cana, no grito do pregador, no doce sumo da manga, no gesto do vendedor: quem vive já é poema, sem saber que é trovador!
XVI O poeta foi embora com apenas três reais, de bufo e de solene, ora menos, ora mais: quem serve ao povo, basta — que isso não tem rivais!
〔Refrão〕 | — Leva! Leva que tá bom! | leva logo o seu cordel! | Mais barato que cebola, | mais gostoso do que o mel! | Dez centavos, leva tudo! | — Vende verso a granel!
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