I
Num dia de muito sol
lá chegou um trovador
com suas caixas de versos,
poemas de todo sabor:
— Dez reais! São cem poemas!
— Pra senhora e pro senhor!
II
Gritava com voz tão clara,
feito o melhor pregoeiro:
— Trova, quadra e cordel!
— Tem sortido, companheiro!
— Soneto! Verso fresquinho!
— Leva logo, brasileiro!
III
A venda não se movia,
nem alma veio ali:
— Se dez reais não convence,
deixa eu falar mais aqui:
— Quinhentos por dez, irmão!
— Baratim que eu nunca vi!
IV
A xepa baixa de preço
no ponto de estragar:
mas o verso que vai baixo
é verso que vai voar!
Quem compra nem sabe o preço,
quem vende — também, sem par!
V
Quinhentos versos por dez,
dois centavos o montão:
não tem lógica nem conta,
tudo isso sem razão!
A vida toda em poema,
virando xepa no chão!
VI
Mulher passou com carrinho,
nem olhou pro vendedor,
o homem leu o jornal,
sem ligar pro trovador:
criança puxou a saia:
— Que livro? Que isso, doutor!?
V
O feirante ao lado riu:
— Poesia não enche, não!
Melhor banana madura,
abacaxi do grandão!
Verso nunca faz comida,
— O que enche é feijão!
VI
O poeta respondeu
com um riso decidido:
— Verso é a alma faminta,
alimento bem pedido!
Rima tem cor, tem aroma,
— É o prato preferido!
VII
— Qual o sabor do poema?
— É pimenta! É ardor!
Só comendo você sabe!
Dá calor e tem sabor!
Se comer demais, tonteia,
estraga o provador!
〔Refrão〕
| — Leva! Leva que tá bom!
| leva logo o seu cordel!
| Mais barato que cebola,
| mais gostoso do que o mel!
| Dez centavos, leva tudo!
| — Vende verso a granel!
VIII
Uma moça parou, sim,
de olhos no trovador:
— Vale mesmo a poesia?
— É o sal do trabalhador!
— E o que é que ela faz?
— Ela alegra um sofredor!
IX
A moça então falou:
— E o preço real, doutor?
Arte não tem preço fixo,
— Tem sabor! Não tem valor!
— E pra quem será então?
— Para quem comprar, senhor!
X
O sol foi baixando, sim,
a tarde virou serão:
restam três livros na caixa,
sobra o que vai pro chão!
O moço se alegrou:
— Quem ama não tem razão!
XI
— Leva de graça! Vem cá!
Verso, fruto amassado,
doce demais, não se vende,
maduro, quase estragado!
Erva daninha no asfalto:
teimoso e não derrotado!
XII
A lua foi despontando,
enquanto a feira se ia:
cheiro de manga no ar,
misturado com poesia!
Com alguns reais no bolso,
o moço foi e sorria!
XIII
Ao fim da feira do dia,
sobrou poema a rimar:
quem que deu e quem levou,
— Quem lucrou nesse lugar?
Entre o dado e o furtado,
quem vai poder calcular?
XIV
O vendedor de melão,
a criança que passou,
a moça com o seu livro,
o que olhou e se mandou:
todos, sem saber, cantaram
o verso que a vida criou!
XV
O verso vive na cana,
no grito do pregador,
no doce sumo da manga,
no gesto do vendedor:
quem vive já é poema,
sem saber que é trovador!
XVI
O poeta foi embora
com apenas três reais,
de bufo e de solene,
ora menos, ora mais:
quem serve ao povo, basta —
que isso não tem rivais!
〔Refrão〕
| — Leva! Leva que tá bom!
| leva logo o seu cordel!
| Mais barato que cebola,
| mais gostoso do que o mel!
| Dez centavos, leva tudo!
| — Vende verso a granel!
Souza Cruz