
AMAR É VERBO (cordel em redondilha maior)
Data 27/03/2026 02:29:49 | Tópico: Poemas -> Amor
| I
Amar: verbo que transborda, resiste à conjugação, age calado no peito, não cabe em definição, é sujeito e complemento da mais humana oração.
II
O amor é barco e é norte, é vento e navegador, dois que partem sem destino, buscando o mesmo ardor, e o naufrágio, quando vem, salvo, guarda o sal, sabor.
III
Quando dois olhos se pousam sem aviso e sem reparo, o mundo para um instante — silêncio fino e raro — e o que desperta entre os dois dispensa presente caro.
IV
Mas quando um ama sozinho e quem amou vai distante, a voz se perde no vento, o coração fica errante, rompem-se os fios da trama — o que sobra é mendicante.
V
É a água que vai furando a rocha da cachoeira, é o fogo que, no inverno, aquece a margem ribeira, é a chuva, a semente, a terra — germina em qualquer ladeira.
VI
Quando aperta o frio forte e a alma pede ternura, renasce sempre das cinzas, brasa que aquece e perdura, lamparina no escuro: a luz vem de dentro, pura.
VII
Quando a noite pesa fundo e o medo tem seu tormento, põe a mão no ombro caído, faz do pranto um movimento, aquece quem sente frio — é a chama dentro do vento.
VIII
Nasce como nova aurora, tímida luz que desponta, cresce em cada novo dia, maduro, o que mais conta, guarda a chave da memória — raiz que o tempo não afronta.
IX
Mais que dinheiro ou que fama, como uma chama que inflama, é verbo que faz a vida, o que cada alma proclama, é o verbo que nos conjuga — gramática de quem ama.
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