I
Amar: verbo que transborda,
resiste à conjugação,
age calado no peito,
não cabe em definição,
é sujeito e complemento
da mais humana oração.
II
O amor é barco e é norte,
é vento e navegador,
dois que partem sem destino,
buscando o mesmo ardor,
e o naufrágio, quando vem,
salvo, guarda o sal, sabor.
III
Quando dois olhos se pousam
sem aviso e sem reparo,
o mundo para um instante —
silêncio fino e raro —
e o que desperta entre os dois
dispensa presente caro.
IV
Mas quando um ama sozinho
e quem amou vai distante,
a voz se perde no vento,
o coração fica errante,
rompem-se os fios da trama —
o que sobra é mendicante.
V
É a água que vai furando
a rocha da cachoeira,
é o fogo que, no inverno,
aquece a margem ribeira,
é a chuva, a semente, a terra —
germina em qualquer ladeira.
VI
Quando aperta o frio forte
e a alma pede ternura,
renasce sempre das cinzas,
brasa que aquece e perdura,
lamparina no escuro:
a luz vem de dentro, pura.
VII
Quando a noite pesa fundo
e o medo tem seu tormento,
põe a mão no ombro caído,
faz do pranto um movimento,
aquece quem sente frio —
é a chama dentro do vento.
VIII
Nasce como nova aurora,
tímida luz que desponta,
cresce em cada novo dia,
maduro, o que mais conta,
guarda a chave da memória —
raiz que o tempo não afronta.
IX
Mais que dinheiro ou que fama,
como uma chama que inflama,
é verbo que faz a vida,
o que cada alma proclama,
é o verbo que nos conjuga —
gramática de quem ama.
Souza Cruz