
Elegia ao Luar Enforcado
Data 27/03/2026 11:49:59 | Tópico: Poemas
| Sob a torre onde o vento lamenta solitário, ergue-se a lua pálida, forca num céu partido. Os sinos soam como se enterrassem o tempo, e cada badalada rasga mais fundo o manto da noite.
— Ó morte, minha amante de véus intermináveis, beija-me nos olhos antes que o sono me tome. Pois já não temo teus dedos frios, mas o rumor do silêncio que deixas atrás de ti.
Vi no espelho um vulto que não era meu reflexo, e ele me falou na língua dos afogados: — Tudo o que amas é já ruína, e todo juramento é apenas cinza disfarçada.
Então caminhei pelo corredor dos quadros antigos, onde rostos sem nome seguiam meus passos. Ali, o poeta sombrio teria chorado sua última tragédia, e Eu encontrei mais um corvo sem asas.
Meu coração, esse relicário de tempestades, bate como porta trancada em casa vazia. Não peço clemência, não peço auroras apenas que a escuridão me trate como filho.
Se o amor vier, que venha em luto, trazendo nas mãos um cálice de veneno e vinho. Pois beberei ambos, sorrindo, como quem brinda ao próprio epitáfio.
E quando o último suspiro se vestir de sombra, que minha voz se dissolva no vento, para que alguém, um dia, a confunda com prece e descubra tarde demais que era maldição.
Publicado no E-Book - Atlas do Abismo. Amazon.
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