Sob a torre onde o vento lamenta solitário,
ergue-se a lua pálida, forca num céu partido.
Os sinos soam como se enterrassem o tempo,
e cada badalada rasga mais fundo o manto da noite.
— Ó morte, minha amante de véus intermináveis,
beija-me nos olhos antes que o sono me tome.
Pois já não temo teus dedos frios,
mas o rumor do silêncio que deixas atrás de ti.
Vi no espelho um vulto que não era meu reflexo,
e ele me falou na língua dos afogados:
— Tudo o que amas é já ruína,
e todo juramento é apenas cinza disfarçada.
Então caminhei pelo corredor dos quadros antigos,
onde rostos sem nome seguiam meus passos.
Ali, o poeta sombrio teria chorado sua última tragédia,
e Eu encontrei mais um corvo sem asas.
Meu coração, esse relicário de tempestades,
bate como porta trancada em casa vazia.
Não peço clemência, não peço auroras
apenas que a escuridão me trate como filho.
Se o amor vier, que venha em luto,
trazendo nas mãos um cálice de veneno e vinho.
Pois beberei ambos, sorrindo,
como quem brinda ao próprio epitáfio.
E quando o último suspiro se vestir de sombra,
que minha voz se dissolva no vento,
para que alguém, um dia, a confunda com prece
e descubra tarde demais que era maldição.
🔬 Sociólogo e Cientista Político
📜 Bacharel em Direito
✍️ Escritor
📖 Poeta
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