
O PESCADOR E O EXILADO (soneto)
Data 27/03/2026 15:41:00 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| Um ser guardou para si toda alvura, Mas curva-se ao peso do rancor; Já outro encara o rio, sem temor, lavando os pés na correnteza escura.
Um, na lama humana, paira em candura. Já outro nada no turvo furor. Clara a água, banha-se no calor. Seu encanto segue leve, sem censura.
Um, feito de luz, foi sacrificado; Outro vai nas trevas, sem se perder; Fez da vida lição, sem ser manchado.
E este sabe, enfim, o que é viver; Vai de alma limpa, e pé sujo: sagrado. Leva seu cantar ao entardecer. O conto nasce de um diálogo ocorrido (ou imaginado) às margens do rio Canglang, na China do séc. III a.C. No original, 漁父 (Yú Fǔ), atribuído ao poeta e ministro exilado Qu Yuan (屈原), narra o encontro entre dois homens diante da mesma água: um que recusa contaminar a sua pureza com a lama do mundo e perece nessa recusa; outro que aprende a nadar no furor sem se perder, e parte cantando. A canção que o pescador entoa ao afastar-se — "quando as águas estão claras, lavo as fitas do chapéu; quando turvas, lavo os pés" — é o coração da mensagem. O leitor deve procurar 漁父: Canções de Chu (楚辭).
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