Poemas -> Reflexão : 

O PESCADOR E O EXILADO (soneto)

 
 
Um ser que guardou em si toda a brancura,
Não curvado ao peso do clamor;
Já outro entra no rio sem temor,
lavando o pé na correnteza escura.

Da lama humana, um paira na candura.
Já outro nada no turvo furor.
Limpa as mãos no claro, os pés no calor,
e o encanto canta — leve, sem censura.

Um feito de luz, foi sacrificado;
O outro dobra a si, sem se perder;
da vida faz canção. Não foi manchado.

E este soube, enfim, o que é viver;
Vai de alma limpa e pé sujo, sagrado.
Levando o cantar ao entardecer.


Souza Cruz

O conto original nasce de um diálogo ocorrido (ou imaginado) às margens do rio Canglang, na China do século III a.C. O texto original, 漁父 (Yú Fǔ), atribuído ao poeta e ministro exilado Qu Yuan (屈原), narra o encontro entre dois homens diante da mesma água: um que recusa contaminar a sua pureza com a lama do mundo e perece nessa recusa; outro que aprende a nadar no furor sem se perder, e parte cantando. A canção que o pescador entoa ao afastar-se — "quando as águas estão claras, lavo as fitas do chapéu; quando turvas, lavo os pés" — é o coração do soneto. O leitor deve procurar 漁父: Canções de Chu (楚辭).
 
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