Um ser guardou para si toda alvura,
Mas curva-se ao peso do rancor;
Já outro encara o rio, sem temor,
lavando os pés na correnteza escura.
Um, na lama humana, paira em candura.
Já outro nada no turvo furor.
Clara a água, banha-se no calor.
Seu encanto segue leve, sem censura.
Um, feito de luz, foi sacrificado;
Outro vai nas trevas, sem se perder;
Fez da vida lição, sem ser manchado.
E este sabe, enfim, o que é viver;
Vai de alma limpa, e pé sujo: sagrado.
Leva seu cantar ao entardecer.
Souza Cruz
O conto nasce de um diálogo ocorrido (ou imaginado) às margens do rio Canglang, na China do séc. III a.C. No original, 漁父 (Yú Fǔ), atribuído ao poeta e ministro exilado Qu Yuan (屈原), narra o encontro entre dois homens diante da mesma água: um que recusa contaminar a sua pureza com a lama do mundo e perece nessa recusa; outro que aprende a nadar no furor sem se perder, e parte cantando. A canção que o pescador entoa ao afastar-se — "quando as águas estão claras, lavo as fitas do chapéu; quando turvas, lavo os pés" — é o coração da mensagem. O leitor deve procurar 漁父: Canções de Chu (楚辭).