
Avó
Data 30/03/2026 11:53:13 | Tópico: Poemas
| O vestido com que a morte enterrou a avó no tempo da pandemia cheirava a naftalina. Guardou-se durante anos no depósito dos objetos esquecidos, por detrás da colecção de livros de receitas culinárias, do galo de Barcelos deixado pela prima Sandra e da fotografia do avô a pescar na barragem da Aguieira quando era novo.
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Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, diz Antoine Lavoisier. Todavia, Antoine Lavoisier não conhece o depósito dos objetos esquecidos da avó. Aqui tudo fica, acumula-se e multiplica-se, como o pão e o peixe no tempo bíblico.
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Seis de abril de 2022: o dia em que a luz entrou e mostrou o vestido de naftalina com que enterraram a avó no talhão da família.
A Sandra nunca levou o galo. O avô não voltou a pescar na Aguieira. A avó nunca mais fez sopa de couve e feijão.
Sinto a sua falta.
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