Poemas : 

Avó

 
O
vestido com que a morte
enterrou
a avó
no tempo da pandemia
cheirava
a naftalina.
Guardou-se
durante anos
no depósito
dos objetos esquecidos,
por detrás da colecção
de livros de receitas culinárias,
do galo de Barcelos
deixado pela prima Sandra
e da fotografia
do avô a pescar
na barragem da Aguieira
quando era novo.



Nada se cria,
nada se perde,
tudo se transforma,
diz Antoine Lavoisier.
Todavia, Antoine Lavoisier
não conhece
o depósito dos objetos esquecidos
da avó.
Aqui tudo fica,
acumula-se
e multiplica-se,
como o pão e o peixe
no tempo bíblico.



Seis
de abril de 2022:
o dia em que a luz
entrou
e mostrou
o vestido de naftalina
com que enterraram
a avó
no talhão da família.

A Sandra nunca levou o galo.
O avô não voltou a pescar na Aguieira.
A avó nunca mais fez sopa de couve e feijão.

Sinto a sua falta.

 
Autor
Levant
Autor
 
Texto
Data
Leituras
45
Favoritos
0
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
0 pontos
0
0
0
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Links patrocinados