
Estamos sendo vigiados
Data 14/04/2026 21:55:12 | Tópico: Poemas -> Intervenção
| Tem um olho enorme pairando sobre a cidade. Não é de carne nem de divindade, É feito de telas, De slogans, De dados coletados em silêncio. Ele não pisca. Não dorme. E não precisa gritar ordens. Basta sugerir. Nas vitrines iluminadas, Nas propagandas Que prometem felicidade em parcelas, Nas frases curtas que cabem em quinze segundos E convencem uma multidão De que escolheram livremente. Mas quase nada é escolha. Alguém escreveu o roteiro antes. Alguém definiu o desejo Antes que ele nascesse em nós. As ruas estão cheias de pessoas caminhando Com as próprias algemas nos bolsos, Chamando-as de conforto, Chamando-as de progresso. O olho observa. Ele aprende nossos medos, Arquiva nossos gostos, Mede nossas hesitações. E então devolve ao mundo Uma realidade cuidadosamente editada. Uma verdade filtrada. Uma opinião pronta. A vigilância moderna não precisa de soldados. Ela prefere algoritmos. Não precisa de censura explícita, Basta afogar a verdade em um mar de distrações. Enquanto isso, O grande olho cresce. Alimentado por cliques, Por selfies, Por confissões voluntárias Que chamamos de rede social. O mais inquietante Não é o fato de estarmos sendo observados. Mas o fato de que, aos poucos, Aprendemos a nos comportar Como se o olho estivesse sempre olhando. E assim a prisão se completa. Sem muros. Sem grades. Apenas com um olho gigantesco no céu digital E milhões de pessoas Que já esqueceram Como é viver fora do seu campo de visão. Poema: Odair José, Poeta Cacerense www.odairpoetacacerense.blogspot.com
Instagram @poetacacerense
|
|