Tem um olho enorme pairando sobre a cidade.
Não é de carne nem de divindade,
É feito de telas,
De slogans,
De dados coletados em silêncio.
Ele não pisca.
Não dorme.
E não precisa gritar ordens.
Basta sugerir.
Nas vitrines iluminadas,
Nas propagandas
Que prometem felicidade em parcelas,
Nas frases curtas que cabem em quinze segundos
E convencem uma multidão
De que escolheram livremente.
Mas quase nada é escolha.
Alguém escreveu o roteiro antes.
Alguém definiu o desejo
Antes que ele nascesse em nós.
As ruas estão cheias de pessoas caminhando
Com as próprias algemas nos bolsos,
Chamando-as de conforto,
Chamando-as de progresso.
O olho observa.
Ele aprende nossos medos,
Arquiva nossos gostos,
Mede nossas hesitações.
E então devolve ao mundo
Uma realidade cuidadosamente editada.
Uma verdade filtrada.
Uma opinião pronta.
A vigilância moderna não precisa de soldados.
Ela prefere algoritmos.
Não precisa de censura explícita,
Basta afogar a verdade em um mar de distrações.
Enquanto isso,
O grande olho cresce.
Alimentado por cliques,
Por selfies,
Por confissões voluntárias
Que chamamos de rede social.
O mais inquietante
Não é o fato de estarmos sendo observados.
Mas o fato de que, aos poucos,
Aprendemos a nos comportar
Como se o olho estivesse sempre olhando.
E assim a prisão se completa.
Sem muros.
Sem grades.
Apenas com um olho gigantesco no céu digital
E milhões de pessoas
Que já esqueceram
Como é viver fora do seu campo de visão.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense