A espera que também me escreve

Data 16/04/2026 01:37:49 | Tópico: Prosas Poéticas

Eu não escrevo quando quero; escrevo quando algo dentro de mim decide falar. Por isso, aprendi a não violentar o tempo da inspiração. Em vez disso, preparo o cenário como quem espera algo sagrado, ainda que invisível.

Naquela mesma cidade, no dia seguinte, voltei à cafeteria. Desta vez, entrei.


Escolhi uma mesa próxima à janela. Gosto de ver o movimento sem necessariamente fazer parte dele. Pedi o café forte, sem açúcar, e deixei o livro aberto diante de mim, embora eu não estivesse exatamente lendo. Eu amo a leitura, mas há dias em que as palavras dos outros servem apenas como companhia, não como destino.

O café chegou. Segurei a xícara com as duas mãos, como quem busca aquecer não apenas os dedos, mas alguma parte mais funda de si. Soprei levemente, observando a fumaça subir em espirais delicadas, quase como pensamentos que ainda não se formaram por completo.

A inspiração não vinha. E eu já não me desespero por isso. Houve um tempo em que a ausência das palavras me parecia abandono; hoje, entendo: o silêncio também escreve, só que por dentro.


Do lado de fora, a brisa de outono atravessava a rua com uma elegância discreta. Algumas folhas se desprendiam das árvores e dançavam no ar antes de tocar o chão. Eu acompanhava esse movimento com uma atenção quase devocional. Gosto disso — do que não precisa de aplauso, do que simplesmente acontece.

A solitude não me assusta. É ali, naquele espaço onde ninguém exige nada de mim, que me encontro mais inteira. Não há performance, não há pressa. Apenas presença.

Folheio o livro sem realmente avançar na leitura. Meus olhos, vez ou outra, desviam para as pessoas ao redor. Observar é um dos meus hábitos mais íntimos:

Um casal discute em voz baixa, mas com olhares que gritam.

Um homem sozinho digita no celular com urgência, como se o mundo dependesse daquela resposta.

Duas amigas riem alto, despreocupadas, alheias a qualquer julgamento.

Eu não julgo. Eu recolho. Guardo gestos, expressões, silêncios interrompidos. Sei que, em algum momento, tudo isso encontrará forma dentro de mim.

Termino o café. A inspiração ainda não chegou, mas algo dentro de mim está sendo preparado — eu sinto. Eu não sou feita apenas das palavras que escrevo, mas também das que espero.

Levanto-me com calma, ajeito o livro contra o peito e lanço um último olhar pela janela. A brisa continua. E, por um instante breve, quase imperceptível, uma frase me atravessa — leve, como folha em queda:

"Há silêncios em mim que não são ausência… são gestação."

Sorrio. Não anoto. Algumas palavras gostam de amadurecer antes de nascer no papel.
Primeiro Texto

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