Prosas Poéticas : 

A espera que também me escreve

 
Eu não escrevo quando quero; escrevo quando algo dentro de mim decide falar. Por isso, aprendi a não violentar o tempo da inspiração. Em vez disso, preparo o cenário como quem espera algo sagrado, ainda que invisível.

Naquela mesma cidade, no dia seguinte, voltei à cafeteria. Desta vez, entrei.


Escolhi uma mesa próxima à janela. Gosto de ver o movimento sem necessariamente fazer parte dele. Pedi o café forte, sem açúcar, e deixei o livro aberto diante de mim, embora eu não estivesse exatamente lendo. Eu amo a leitura, mas há dias em que as palavras dos outros servem apenas como companhia, não como destino.

O café chegou. Segurei a xícara com as duas mãos, como quem busca aquecer não apenas os dedos, mas alguma parte mais funda de si. Soprei levemente, observando a fumaça subir em espirais delicadas, quase como pensamentos que ainda não se formaram por completo.

A inspiração não vinha. E eu já não me desespero por isso. Houve um tempo em que a ausência das palavras me parecia abandono; hoje, entendo: o silêncio também escreve, só que por dentro.


Do lado de fora, a brisa de outono atravessava a rua com uma elegância discreta. Algumas folhas se desprendiam das árvores e dançavam no ar antes de tocar o chão. Eu acompanhava esse movimento com uma atenção quase devocional. Gosto disso — do que não precisa de aplauso, do que simplesmente acontece.

A solitude não me assusta. É ali, naquele espaço onde ninguém exige nada de mim, que me encontro mais inteira. Não há performance, não há pressa. Apenas presença.

Folheio o livro sem realmente avançar na leitura. Meus olhos, vez ou outra, desviam para as pessoas ao redor. Observar é um dos meus hábitos mais íntimos:

Um casal discute em voz baixa, mas com olhares que gritam.

Um homem sozinho digita no celular com urgência, como se o mundo dependesse daquela resposta.

Duas amigas riem alto, despreocupadas, alheias a qualquer julgamento.

Eu não julgo. Eu recolho. Guardo gestos, expressões, silêncios interrompidos. Sei que, em algum momento, tudo isso encontrará forma dentro de mim.

Termino o café. A inspiração ainda não chegou, mas algo dentro de mim está sendo preparado — eu sinto. Eu não sou feita apenas das palavras que escrevo, mas também das que espero.

Levanto-me com calma, ajeito o livro contra o peito e lanço um último olhar pela janela. A brisa continua. E, por um instante breve, quase imperceptível, uma frase me atravessa — leve, como folha em queda:

"Há silêncios em mim que não são ausência… são gestação."

Sorrio. Não anoto. Algumas palavras gostam de amadurecer antes de nascer no papel.


Fragmentos de Sonhos
(Isa)

 
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FragmentosdeSonhos
 
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Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 17/04/2026 09:15  Atualizado: 17/04/2026 09:15
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Mensagens: 1560
 Re: A espera que também me escreve
Citando:
"Há silêncios em mim que não são ausência… são gestação."


prossigo calado
há nós constantes na mente
constantemente
a desfazer
e assim que desfeitos
nada desmentirá
as linhas
já que os nós
nunca foram cegos

um bom dia :)


Enviado por Tópico
klopes
Publicado: 19/04/2026 15:57  Atualizado: 19/04/2026 15:57
Muito Participativo
Usuário desde: 15/02/2026
Localidade: Lisboa
Mensagens: 54
 Re: A espera que também me escreve
Carissíma,

[... E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: «São horas de te embriagares!
Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com virtude, a teu gosto.»]
In “O Spleen de Paris”, Charles Baudelaire.

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