
Piscina municipal
Data 28/04/2026 16:31:39 | Tópico: Poemas
| Vasta como o verão passado, solta um longo sopro de enfado e olha os corpos dos velhos da aula de hidroginástica que flutuam na água turquesa da piscina municipal, como numa morte coletiva, limpa, exangue,
a
pele branquinha escapa pelas costuras do maillot estreito enquanto aguarda o início da aula de ballet para adultos, na sala espelhada do fundo, já tardando, madame Júpiter (nome de planeta) ensaiará um gasoso pas de deux, numa pirueta, e voilà. baterá palmas, as chaves de casa estalando nos anéis, nos dedos, nas palmas das mãos,
todavia num lugar escondido da memória senta-se no sofá roxo com o xerez seco, o ar estival entra pelo janelão com vista para a calla turquesa, e sob as sombras píneas de Menorca, o amantíssimo
ri
na cadeira de palha de uma graça que o cão desenha, ou dos raios prateados na água salgada,
na boca um cigarro apagado, imperceptível tremor nos lábios, o último gole: o verão inteiro num cálice translúcido,
e
sentada no banco o tumulto de braços, de risos, de movimentos coreografados traz de volta o presente,
enorme e sozinha, suspira mais uma vez, enquanto os velhos flutuam na água turquesa da piscina municipal, numa valsa lenta,
exangue.
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