vasta como o verão passado
solta um longo sopro de enfado
e olha
os corpos dos velhos na aula
de hidroginástica que flutuam
na água turquesa da piscina municipal
como numa morte coletiva
limpa
exangue
a pele branquinha escapa
pelas costuras do maillot apertado
enquanto aguarda
o início da aula de ballet para seniores
na sala espelhada do fundo
à chegada de madame Júpiter
a mulher levantará o corpo
ensaiará
um pas de deux
uma pirueta
e voilà
a professora baterá palmas
as chaves de casa estalando contra os anéis nas palmas das mãos
todavia
num lugar escondido
da memória senta-se
no sofá roxo com o xerez seco
o ar estival entra pelo janelão com vista para a cala turquesa
e sob as sombras píneas de Menorca
o amantíssimo
ri
na cadeira de palha
de uma graça que o cão
desenha ou dos raios prateados na água salgada
na boca um cigarro apagado
imperceptível tremor nos lábios
o último gole
o verão inteiro
num cálice translúcido
e
sentada no banco
o tumulto de braços de risos de movimentos coreografados
traz de volta o presente
enorme e sozinha
suspira mais uma vez
enquanto
os velhos flutuam
na água turquesa
da piscina municipal
numa alva valsa
lenta