
A Liturgia das Horas Vastas - Chris Katz
Data 29/04/2026 18:05:49 | Tópico: Poemas
| A Liturgia das Horas Vastas
Há um silêncio que não é mudo, mas feito de vozes antigas, Que se aninham nas dobras das vestes e nos vãos das cantigas. O tempo, esse mestre de mãos pesadas e passos de veludo, Vai esculpindo no rosto o que a alma guardou de mais mudo. Não são rugas, são sulcos onde a vida plantou seus segredos, Caminhos trilhados entre o desejo puro e os antigos medos.
Olho as mãos que carregam o peso de tantos crepúsculos, E vejo nelas a escrita de amores que foram minúsculos, Mas que cresceram na falta, na ausência, no oco do peito, Até se tornarem gigantes, ocupando todo o nosso leito. Pois o que falta nos define tanto quanto o que nos sobeja, E a saudade é o sino que, no alto da torre, sempre bafeja.
O cotidiano, esse altar de pão, de café e de poeira, É a nossa única pátria, a nossa última e fiel trincheira. Na lida das roupas, no brilho da louça, no gato que passa, Há uma oração sem palavras que a própria vida traça. A falta do outro é o perfume que fica no quarto vazio, Um sol de outono que aquece, mas que nos deixa o frio.
Aceito, pois, este desterro de ser apenas consciência, De ver no espelho uma estranha de vasta e doce experiência. Os cabelos de prata são as páginas que o destino escreveu, De um livro sagrado que ninguém, senão a alma, leu. Que a solidão seja o vinho que bebemos em taça de ouro, Pois possuir-se a si mesmo é o nosso maior tesouro.
Chris Katz
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