A Liturgia das Horas Vastas
Há um silêncio que não é mudo, mas feito de vozes antigas,
Que se aninham nas dobras das vestes e nos vãos das cantigas.
O tempo, esse mestre de mãos pesadas e passos de veludo,
Vai esculpindo no rosto o que a alma guardou de mais mudo.
Não são rugas, são sulcos onde a vida plantou seus segredos,
Caminhos trilhados entre o desejo puro e os antigos medos.
Olho as mãos que carregam o peso de tantos crepúsculos,
E vejo nelas a escrita de amores que foram minúsculos,
Mas que cresceram na falta, na ausência, no oco do peito,
Até se tornarem gigantes, ocupando todo o nosso leito.
Pois o que falta nos define tanto quanto o que nos sobeja,
E a saudade é o sino que, no alto da torre, sempre bafeja.
O cotidiano, esse altar de pão, de café e de poeira,
É a nossa única pátria, a nossa última e fiel trincheira.
Na lida das roupas, no brilho da louça, no gato que passa,
Há uma oração sem palavras que a própria vida traça.
A falta do outro é o perfume que fica no quarto vazio,
Um sol de outono que aquece, mas que nos deixa o frio.
Aceito, pois, este desterro de ser apenas consciência,
De ver no espelho uma estranha de vasta e doce experiência.
Os cabelos de prata são as páginas que o destino escreveu,
De um livro sagrado que ninguém, senão a alma, leu.
Que a solidão seja o vinho que bebemos em taça de ouro,
Pois possuir-se a si mesmo é o nosso maior tesouro.
Chris Katz
Sou Mundos!
Chris