
Ter Amanhã
Data 02/05/2026 09:27:09 | Tópico: Poemas
| Pés descalços no algodão do teto, onde o azul tem frestas de silêncio. Sou resto de meiguice, mãos pequenas moldando o farelo da nuvem. A infância é um pântano de mel onde o tempo não escorre.
Joelhos esfolados, ainda quentes do vapor, pedras brancas no bolso do pijama de estrelas. Não explico o céu: invento-o. Fruta doce — polpa de fumo e desejo de ter. O amanhã é rumor de búzios. Bate à porta, faminto e sedento.
De súbito, o peito ganha uma quilha. A vela enfunada rasga o nevoeiro das sestas. Já não sonho o mundo: conquisto-o. Sou descobridor de continentes no horizonte da sala, viciado na vertigem do destino, na aventura de não saber regressar.
Embriaguez de ser maré alta sem perceber que a lua já dita o recuo. Afoiteza. O vigor é um grito que não precisa de eco, uma corrida que ignora o relógio da cozinha. Não sei que sou breve. Tenho apenas este incêndio que queima.
Ter o amanhã na palma, como um sonho quente. A criança ficou presa no algodão sob o teto enquanto o jovem veleja por entre a espuma do mar. Tudo é agora. O tempo é um erro de cálculo. Eu sou a fenda que o mar não prevê.
Carlos Lopes
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