
Pés descalços no algodão do teto,
onde o azul tem frestas de silêncio.
Sou resto de meiguice,
mãos pequenas moldando o farelo da nuvem.
A infância é um pântano de mel
onde o tempo não escorre.
Joelhos esfolados, ainda quentes do vapor,
pedras brancas no bolso do pijama de estrelas.
Não explico o céu: invento-o.
Fruta doce — polpa de fumo e desejo de ter.
O amanhã é rumor de búzios.
Bate à porta, faminto e sedento.
De súbito, o peito ganha uma quilha.
A vela enfunada rasga o nevoeiro das sestas.
Já não sonho o mundo: conquisto-o.
Sou descobridor de continentes
no horizonte da sala,
viciado na vertigem do destino,
na aventura de não saber regressar.
Embriaguez de ser maré alta
sem perceber que a lua já dita o recuo.
Afoiteza.
O vigor é um grito que não precisa de eco,
uma corrida que ignora o relógio da cozinha.
Não sei que sou breve.
Tenho apenas este incêndio que queima.
Ter o amanhã na palma, como um sonho quente.
A criança ficou presa no algodão sob o teto
enquanto o jovem veleja por entre a espuma do mar.
Tudo é agora.
O tempo é um erro de cálculo.
Eu sou a fenda que o mar não prevê.
Carlos Lopes
"A poesia não deve ser o caminho mais curto entre dois pontos, mas o caminho onde o leitor mais gosta de se perder."