
Ofício de vésperas por Chris Katz
Data 05/05/2026 23:22:49 | Tópico: Poemas
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Nas frestas das tábuas, onde a luz da tarde se deita, o corpo é uma catedral de carne que o silêncio habita. O sagrado se faz urgência no bico dos meus seios fartos, que pesam como frutos maduros demais para o galho, esperando a mão que os colha no meio do ofício.
Há uma liturgia de espera no latejar do sangue, um desejo que é reza brava subindo pelas pernas. A falta da saliva dele é um deserto no meu paladar, enquanto o doce molhar do meu sexo, orvalho noturno, escorre inútil, banhando uma terra que ninguém semeia.
Deus deve saber o que é esta sede de ser possuída, este vácuo que o amor deixou, como um prego na parede. O gozo, quando falta, é um pecado que dói no osso, uma comunhão interrompida, um vinho que azedou no jarro, deixando o espírito em jejum sobre os lençóis de linho.
A ausência do sexo é uma quaresma que nunca termina. Busco no tato da toalha o rastro de uma pele outra, e no calor do café, o simulacro de um sopro no pescoço. Sou mulher de peito e desejo, feita de barro e de fogo, peregrina de um prazer que se perdeu nas estradas.
Minha alma é uma bacia cheia de água sob o sol, refletindo um céu que não desce para me tocar. Nomeio a falta dele como quem organiza os talheres: aqui o beijo, ali o abraço, acolá o estremecer profundo, peças de um banquete que a mesa insiste em não servir.
Dobro os panos de prato com a reverência das viúvas, mas meu corpo grita um amém que a carne não alcança. O sagrado mora neste oco, nesta espera que me consome, pois se a fome existe, é porque o pão há de ser real, mesmo que hoje eu jante apenas a minha própria solidão.
Ofício de vésperas por Chris Katz
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