Nas frestas das tábuas, onde a luz da tarde se deita,
o corpo é uma catedral de carne que o silêncio habita.
O sagrado se faz urgência no bico dos meus seios fartos,
que pesam como frutos maduros demais para o galho,
esperando a mão que os colha no meio do ofício.
Há uma liturgia de espera no latejar do sangue,
um desejo que é reza brava subindo pelas pernas.
A falta da saliva dele é um deserto no meu paladar,
enquanto o doce molhar do meu sexo, orvalho noturno,
escorre inútil, banhando uma terra que ninguém semeia.
Deus deve saber o que é esta sede de ser possuída,
este vácuo que o amor deixou, como um prego na parede.
O gozo, quando falta, é um pecado que dói no osso,
uma comunhão interrompida, um vinho que azedou no jarro,
deixando o espírito em jejum sobre os lençóis de linho.
A ausência do sexo é uma quaresma que nunca termina.
Busco no tato da toalha o rastro de uma pele outra,
e no calor do café, o simulacro de um sopro no pescoço.
Sou mulher de peito e desejo, feita de barro e de fogo,
peregrina de um prazer que se perdeu nas estradas.
Minha alma é uma bacia cheia de água sob o sol,
refletindo um céu que não desce para me tocar.
Nomeio a falta dele como quem organiza os talheres:
aqui o beijo, ali o abraço, acolá o estremecer profundo,
peças de um banquete que a mesa insiste em não servir.
Dobro os panos de prato com a reverência das viúvas,
mas meu corpo grita um amém que a carne não alcança.
O sagrado mora neste oco, nesta espera que me consome,
pois se a fome existe, é porque o pão há de ser real,
mesmo que hoje eu jante apenas a minha própria solidão.
Ofício de vésperas por Chris Katz
Sou Mundos!
Chris