
O Ofício - Por Chris Katz
Data 08/05/2026 12:01:35 | Tópico: Poemas
| O Ofício
Sobre a tábua de carne, o dia acorda, Um frio de prata em meio à luz primeira. O aço não tem voz, mas tem a borda Que dita o ritmo da vida inteira. Repousa a lâmina, o corpo descansa, Enquanto o bule ferve o sentimento; A faca é uma espécie de esperança Que corta o pão e aparta o sofrimento.
Não há pecado no metal polido, Apenas o labor, o ofício mudo. O tomate se entrega, já vencido, No sacrifício de oferecer tudo. A polpa sangra um rubro camponês, A casca cai, memória de outro estado; A faca opera a sua lucidez No altar da pia, sobre o chão molhado.
Ó instrumento de rigor e espanto, Que aparta a pele da cebola amarga; Tu não conheces o pudor do pranto, Embora carregues da manhã a carga. Entre o divino e o resto da cozinha, Tu bates no osso, buscas a raiz; És o limite, a régua e a linha, O traço agudo de um viver feliz.
Ao meio-dia, o sol no gume brilha, Reflexo de um deus que habita o ferro. És a guardiã da humana trilha, Onde o sustento afasta o desterro. Mão que te empunha sabe da finitude, Da carne mole sob o corte exato; Não há no mundo maior plenitude Do que a verdade contida no ato.
À tarde, o silêncio se faz mais denso, A faca espera o turno do jantar. O aço é um monólogo suspenso, Pronto para o que for de descascar. As mãos se cansam, mas o gume, atento, Mantém a fúria e a delicadeza; És a parceira de cada momento, A alma nua posta sobre a mesa.
E quando a lua invade o casario, E o pano te envolve em calmo repouso, Tu dormes sob o peso do teu brio, Em um descanso enfim, vitorioso. Guardas o gosto do alho e da lida, O brilho oculto no fundo da gaveta; Pois em teu corte escreves a vida, Ponta de ferro e rima perfeita.
Por Chris F. Katz
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