O Ofício
Sobre a tábua de carne, o dia acorda,
Um frio de prata em meio à luz primeira.
O aço não tem voz, mas tem a borda
Que dita o ritmo da vida inteira.
Repousa a lâmina, o corpo descansa,
Enquanto o bule ferve o sentimento;
A faca é uma espécie de esperança
Que corta o pão e aparta o sofrimento.
Não há pecado no metal polido,
Apenas o labor, o ofício mudo.
O tomate se entrega, já vencido,
No sacrifício de oferecer tudo.
A polpa sangra um rubro camponês,
A casca cai, memória de outro estado;
A faca opera a sua lucidez
No altar da pia, sobre o chão molhado.
Ó instrumento de rigor e espanto,
Que aparta a pele da cebola amarga;
Tu não conheces o pudor do pranto,
Embora carregues da manhã a carga.
Entre o divino e o resto da cozinha,
Tu bates no osso, buscas a raiz;
És o limite, a régua e a linha,
O traço agudo de um viver feliz.
Ao meio-dia, o sol no gume brilha,
Reflexo de um deus que habita o ferro.
És a guardiã da humana trilha,
Onde o sustento afasta o desterro.
Mão que te empunha sabe da finitude,
Da carne mole sob o corte exato;
Não há no mundo maior plenitude
Do que a verdade contida no ato.
À tarde, o silêncio se faz mais denso,
A faca espera o turno do jantar.
O aço é um monólogo suspenso,
Pronto para o que for de descascar.
As mãos se cansam, mas o gume, atento,
Mantém a fúria e a delicadeza;
És a parceira de cada momento,
A alma nua posta sobre a mesa.
E quando a lua invade o casario,
E o pano te envolve em calmo repouso,
Tu dormes sob o peso do teu brio,
Em um descanso enfim, vitorioso.
Guardas o gosto do alho e da lida,
O brilho oculto no fundo da gaveta;
Pois em teu corte escreves a vida,
Ponta de ferro e rima perfeita.
Por Chris F. Katz
Sou Mundos!
Chris