
II. O Hálito da Terra Por Chris Katz
Data 08/05/2026 15:32:00 | Tópico: Poemas
| II. O Hálito da Terra (Uma Sestina sobre a Pitonisa de Delfos)
No centro do templo, onde a pedra é o mundo, A fenda se abre e libera seu fumo. A virgem se senta, espera o deus, Sentindo no sangue a força do transe. Os reis se ajoelham pedindo o destino, Mas a voz que responde é pura neblina.
O olhar da profetisa se perde na neblina, Pois ela enxerga o que falta no mundo. Ela não escolhe qual será o destino, Apenas traduz o que diz o seu fumo. A alma se desprende num longo transe, Para ser o canal da palavra do deus.
O sol se apaga diante do deus, E a verdade se oculta em mantos de neblina. Não há consciência no meio do transe, Apenas o peso de carregar todo o mundo. O segredo sobe nas espirais de fumo, Tecendo as linhas do incerto destino.
Quem se atreve a questionar o destino, Quando ele sopra pela boca do deus? Tudo se queima no altar e no fumo, Enquanto o futuro se veste de neblina. A sabedoria é o abismo do mundo, Um salto no escuro no auge do transe.
O corpo treme no calor do transe, Pois é pesado demais o fio do destino. Ela vê a ruína de cada grande mundo, Caindo em silêncio por ordem do deus. A clareza se torna uma densa neblina, E o templo se cala sob o véu de fumo.
As cinzas descansam no rastro do fumo, A vida retorna depois de cada transe. Mas resta na mente uma leve neblina, O gosto amargo de saber o destino. Ninguém sai ileso do toque de um deus, Nem a profetisa, nem o resto do mundo.
O transe é o fumo que revela o mundo, O deus é o destino que sopra a neblina, E na neblina do mundo, renasce o destino.
Por Chris Katz
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