II. O Hálito da Terra
(Uma Sestina sobre a Pitonisa de Delfos)
No centro do templo, onde a pedra é o mundo,
A fenda se abre e libera seu fumo.
A virgem se senta, espera o deus,
Sentindo no sangue a força do transe.
Os reis se ajoelham pedindo o destino,
Mas a voz que responde é pura neblina.
O olhar da profetisa se perde na neblina,
Pois ela enxerga o que falta no mundo.
Ela não escolhe qual será o destino,
Apenas traduz o que diz o seu fumo.
A alma se desprende num longo transe,
Para ser o canal da palavra do deus.
O sol se apaga diante do deus,
E a verdade se oculta em mantos de neblina.
Não há consciência no meio do transe,
Apenas o peso de carregar todo o mundo.
O segredo sobe nas espirais de fumo,
Tecendo as linhas do incerto destino.
Quem se atreve a questionar o destino,
Quando ele sopra pela boca do deus?
Tudo se queima no altar e no fumo,
Enquanto o futuro se veste de neblina.
A sabedoria é o abismo do mundo,
Um salto no escuro no auge do transe.
O corpo treme no calor do transe,
Pois é pesado demais o fio do destino.
Ela vê a ruína de cada grande mundo,
Caindo em silêncio por ordem do deus.
A clareza se torna uma densa neblina,
E o templo se cala sob o véu de fumo.
As cinzas descansam no rastro do fumo,
A vida retorna depois de cada transe.
Mas resta na mente uma leve neblina,
O gosto amargo de saber o destino.
Ninguém sai ileso do toque de um deus,
Nem a profetisa, nem o resto do mundo.
O transe é o fumo que revela o mundo,
O deus é o destino que sopra a neblina,
E na neblina do mundo, renasce o destino.
Por Chris Katz
Sou Mundos!
Chris