O Comboio

Data 23/05/2026 11:04:48 | Tópico: Poemas

O comboio não espera pela honestidade.

Expira uma vez — metal, luz, distância — e começa a esquecer a plataforma.

E há aquele momento em que tudo dentro de ti se move, mas nada fora de ti aceita.

Então ficas imóvel.

Não porque estás calmo, mas porque mexer-se seria admitir algo: que querias ir, que chegaste tarde, que quase estendeste a mão.

As portas fecham como uma frase a terminar depressa demais.

E o comboio afasta-se levando todas as versões de ti que poderiam ter entrado.

Ficas para trás a representar indiferença como se fosse um casaco contra a chuva.

Olhas ao longo dos carris e praticas a mentira no peito:

Eu também não queria.

Mas o corpo denuncia-te em pequenos detalhes — o peso nas mãos, o ritmo da respiração, a forma como os olhos seguem algo que já não está ali.

A plataforma fica mais barulhenta depois de partir.

Não com som, mas com ausência a reorganizar-se: espaço onde antes havia urgência, ar onde antes havia possibilidade.

E ainda assim ficas imóvel, como se a imobilidade pudesse reescrever o tempo, como se não te mexeres pudesse transformar arrependimento em decisão.

Mas os comboios não negociam.

Só partem.

E o que fica para trás é a coreografia silenciosa de fingir que nunca estavas a correr desde o início.

© | Palavras guardadas, todos os direitos reservados, Paula Oliveira,Portugal

A velocidade da verdade e mentira



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