O comboio não espera pela honestidade.
Expira uma vez — metal, luz, distância — e começa a esquecer a plataforma.
E há aquele momento em que tudo dentro de ti se move, mas nada fora de ti aceita.
Então ficas imóvel.
Não porque estás calmo, mas porque mexer-se seria admitir algo: que querias ir, que chegaste tarde, que quase estendeste a mão.
As portas fecham como uma frase a terminar depressa demais.
E o comboio afasta-se levando todas as versões de ti que poderiam ter entrado.
Ficas para trás a representar indiferença como se fosse um casaco contra a chuva.
Olhas ao longo dos carris e praticas a mentira no peito:
Eu também não queria.
Mas o corpo denuncia-te em pequenos detalhes — o peso nas mãos, o ritmo da respiração, a forma como os olhos seguem algo que já não está ali.
A plataforma fica mais barulhenta depois de partir.
Não com som, mas com ausência a reorganizar-se: espaço onde antes havia urgência, ar onde antes havia possibilidade.
E ainda assim ficas imóvel, como se a imobilidade pudesse reescrever o tempo, como se não te mexeres pudesse transformar arrependimento em decisão.
Mas os comboios não negociam.
Só partem.
E o que fica para trás é a coreografia silenciosa de fingir que nunca estavas a correr desde o início.
© | Palavras guardadas, todos os direitos reservados, Paula Oliveira,Portugal
A velocidade da verdade e mentira