
Estação Central das Almas Vazias
Data 26/05/2026 12:00:17 | Tópico: Poemas
| O asfalto bebeu a chuva que caiu no início da noite e agora brilha como um espelho sujo, refletindo um céu sem estrelas, opaco como o chumbo.
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, trago em mim todos os desvios de rota, as garrafas quebradas no meio-fio e a certeza de que o amanhã é só mais um balcão manchado de café.
Olho para os transeuntes que cruzam a avenida. Eles andam depressa, fingindo que têm para onde ir, como se o destino não fosse o mesmo beco sem saída para todos nós. Sinto-me múltiplo e, ao mesmo tempo, perfeitamente deserto. Cada sombra que passa carrega um pedaço do que deixei de ser.
Não há metafísica nesta esquina que não seja a contagem dos postes. A beleza daqui é feita de ferro gusa e lâmpadas que piscam, um monumento à nossa própria ruína. Finjo que sou o poeta que observa a noite, quando na verdade sou apenas a própria noite, olhando para si mesma através de uma vidraça trincada.
Estou cansado, não do que fiz, mas do que a realidade insiste em me lembrar a cada esquina: que existimos, apesar de tudo, com a crueza de um dente quebrado e a lucidez de um teto que desaba.
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Atlas do Abismo "poesia urbana"
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