O asfalto bebeu a chuva que caiu no início da noite
e agora brilha como um espelho sujo,
refletindo um céu sem estrelas, opaco como o chumbo.
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, trago em mim todos os desvios de rota,
as garrafas quebradas no meio-fio
e a certeza de que o amanhã é só mais um balcão manchado de café.
Olho para os transeuntes que cruzam a avenida.
Eles andam depressa, fingindo que têm para onde ir,
como se o destino não fosse o mesmo beco sem saída para todos nós.
Sinto-me múltiplo e, ao mesmo tempo, perfeitamente deserto.
Cada sombra que passa carrega um pedaço do que deixei de ser.
Não há metafísica nesta esquina que não seja a contagem dos postes.
A beleza daqui é feita de ferro gusa e lâmpadas que piscam,
um monumento à nossa própria ruína.
Finjo que sou o poeta que observa a noite,
quando na verdade sou apenas a própria noite,
olhando para si mesma através de uma vidraça trincada.
Estou cansado, não do que fiz,
mas do que a realidade insiste em me lembrar a cada esquina:
que existimos, apesar de tudo,
com a crueza de um dente quebrado e a lucidez de um teto que desaba.
🔬 Sociólogo e Cientista Político
📜 Bacharel em Direito
✍️ Escritor
📖 Poeta
🐶 Cachorreiro
😺 Gateiro
Autor dos E-books. Disponiveis na amazon.com
Atlas do Abismo
"poesia urbana"