
Nina, uma menina.
Data 26/05/2026 16:17:47 | Tópico: Poemas
| Nina pariu o filho de um abuso. Não fora um estupro de beco escuro, daqueles que a polícia entende rápido. Foi pior: foi o estupro lento de sua juventude. Ela tinha dezessete anos quando os abusos começaram. Ele? Dezesseis anos mais velho, mais rodado que pneu de caminhão de autoestrada. Um homem colecionador de ex-mulheres, todas tão abusadas quanto ela — a diferença cruel é que as outras tinham vinte e cinco anos ou mais. Nina era só uma menina. A primeira vez que o viu, sentiu asco. Ela jurava por Deus. Ele gastava saliva falando de literatura e poesia, mas o estômago de Nina sentia repulsa. Achou-o um velho tarado, um homem sem a menor noção de si mesmo. Fez piada com a colega de colégio; elas riram. O amigo da mesma idade também riu. Um rapaz chamado Rodrigo gostava de Nina, mas ela não conseguia gostar de ninguém. Como poderia? Andava tão perdida que pensou em virar freira. O professor de filosofia tinha dito que a filha dele, que havia entrado para o convento, viajava o mundo estudando história. Nina achou que ali haveria um refúgio. Pesquisou sobre isso no computador de uma tia buscando uma fuga. Mas foi o amor de Nina pelos livros que a empurrou para o abismo.
# A Cilada do Verniz Intelectual # Ele perguntou se ela conhecia alguém que quisesse trabalhar em uma livraria. Nina disse que não. Ele, então, pediu o contato dela — puramente "profissional", claro. O pretexto perfeito. Vieram as investidas pela internet. O repúdio de Nina continuava ali, firme e forte, até que o tédio avassalador de uma adolescente sem pai nem mãe por perto a fez ceder a um encontro. Quando chegou, seu corpo gritou: *"Que horror, o que eu estou fazendo aqui?"*. Mas resolveu ficar. Queria ver se havia algo de interessante naquela troca. E foi aí que a armadilha se fechou. De repente, viu naquele homem o pai que lhe faltava, alguém com gostos similares aos seus. Foi se apaixonando. Ele gostava de escrever — e, além de ser um maldito carioca cheio de lábia, escrevia bem. > Aquela velha e trágica história do homem encantador que finge acolher o seu pequeno caos. Não era sexual. Era uma necessidade desesperada de presença paterna. Mas é óbvio que um predador nunca veria a situação dessa forma. > # A Normalização do Terror #
Nina chorou na primeira vez em que esteve com ele. Ela queria um lar. Queria um amigo. Não queria se sentir estuprada mais uma vez — porque, sim, as pessoas vão normalizando os abusos cotidianos e, às vezes, cometem o erro fatal de confundir isso com amor. Começou a acreditar que gostava dele, mas a verdade é que Nina era apenas uma fugitiva da própria realidade juvenil: uma mãe envolvida com namorados problemáticos, um pai que morava em outro estado e um ensino médio com um ou dois amigos. Uma sensação colossal de inadequação e não pertencimento. Antigamente, ela achava que esse deslocamento tinha a ver com a idade. Hoje, Nina sabe que faz parte de sua essência. E tudo bem ser assim. **Ela prefere não caber em nada a se perder de si mesma.** Mas, na época, era só uma menina lidando com a ausência do ser, sem saber nada sobre a vida. Ele a apresentou aos amigos mais velhos. Nina sentiu que finalmente pertencia a algum lugar. Todos foram coniventes com aquela pseudo-história de amor — que, na verdade, era de terror. A mãe dela namorava um homem mau, agressivo. Nina não sabia o que fazer, a mãe não lhe contava nada, e aquele sujeito era só mais um canalha na lista. Nina caiu na rede do seu próprio maldito. Ele escrevia poesias e fazia desenhos sobre ela. Tinha gatos, ouvia as mesmas músicas. Ela foi se acostumando com aquela presença sufocante que a buscava o tempo todo. Foi normalizando as agressões físicas. Ele dizia que aquilo era "normal entre casais", que os amigos dele também "caíam na porrada". Quem era Nina, uma menina assustada, para achar um absurdo? Lembra-se de um dia em que ligou para um ex-namorado que tinha amado muito, o Walter. Chorava alto, sem saber o que fazer. Chovia muito e o maldito tinha acabado de agredi-la. Walter atendeu, perguntou se ela estava bem. Não estava. Mas como explicar uma bizarrice dessas para alguém que tem uma vida normal? Nina correu para a casa da mãe. No dia seguinte, o maldito apareceu com flores e um pedido de desculpas. Ela aceitou. A mãe, que na verdade mal tolerava a presença da filha e arrendava o quarto dela, não reclamou muito. Também não sabia com quem Nina estava lidando. Não realmente naquela época. # Dez Anos de Prisão e a Escolha de Viver # Nina trabalhava, tinha seu próprio dinheiro e vivia com aquele homem que, de vez em quando, se fantasiava de cidadão de bem. Então, ele a levou para outro estado. Longe da família, os abusos — que hoje ela prefere nem mencionar — pioraram drasticamente. Mas Nina era uma mãe jovem, tinha um trabalho que a fazia feliz e algumas amigas; achou que seria capaz de suportar aquela merda de vida. **Afinal, a sociedade adora dizer que as mães têm de suportar tudo pelos filhos.** Mas ela olhava para a família dele, para ele, para o filho... e sentia o asco voltar. Foram dez anos vivendo em um relacionamento que era uma prisão de segurança máxima. Até que um dia o instinto de sobrevivência de Nina gritou: ela não queria mais aquilo. Decidiu que o filho ficaria com o pai. Já tinha suportado o insuportável. Aquele homem nunca pagaria pensão — tanto que a coagiu a assinar um documento de guarda compartilhada, como se Nina fosse uma mulher com a vida estruturada. Como se tudo o que ela tivesse comprado com o próprio suor não tivesse ficado trancado naquela casa. Ela aceitou. Abriu mão de tudo. Guarda compartilhada. Nina nem sabia como faria dali para frente; só queria sobreviver aos dez anos que lhe foram roubados. Precisava sobreviver àquele homem.
# A Sobrevivente #
E ela sobreviveu. Mas sobreviveu longe do filho. Durante um tempo, a dor e as lágrimas foram diminuindo, mas ainda sangra. Às vezes dói no peito de Nina ter deixado o menino para trás. Só que a verdade nua e crua é uma só: se ela não tivesse feito exatamente isso, não seria a mulher forte que é hoje. Estaria morta. Nina só espera, do fundo de sua alma dilacerada, que o seu menino não se torne o pai dele.
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