Poemas : 

Nina, uma menina.

 
Nina pariu o filho de um abuso.
Não fora um estupro de beco escuro, daqueles que a polícia entende rápido. Foi pior: foi o estupro lento de sua juventude. Ela tinha dezessete anos quando os abusos começaram. Ele? Dezesseis anos mais velho, mais rodado que pneu de caminhão de autoestrada. Um homem colecionador de ex-mulheres, todas tão abusadas quanto ela — a diferença é que as outras tinham vinte e cinco anos ou mais. Nina era só uma menina.
Foi o amor de Nina pelos livros que a empurrou para o abismo. A primeira vez que o viu foi logo depois da escola, na livraria onde ele trabalhava como gerente. Ela, ainda de uniforme, e ele, posando de intelectual entre as estantes.
Mesmo naquele cenário, Nina sentiu asco. Ela jurava por Deus. Ele gastava saliva falando de literatura e poesia, mas o estômago dela sentia repulsa. Achou-o um velho tarado, um homem sem a menor noção de si mesmo. Fez piada com a colega de colégio; elas riram. O amigo da mesma idade também riu. Um rapaz chamado Rodrigo gostava de Nina, mas ela não conseguia gostar de ninguém. Como poderia? Andava tão perdida que pensou em virar freira. O professor de filosofia tinha dito que a filha dele, que havia entrado para o convento, viajava o mundo estudando história. Nina achou que ali haveria um refúgio. Pesquisou sobre isso no computador de uma tia, buscando uma fuga.
Mas o predador soube jogar. Naquela mesma tarde na livraria, o gerente perguntou se ela conhecia alguém que quisesse trabalhar ali. Nina disse que não. Ele, então, pediu o contato dela — puramente "profissional", claro. O pretexto perfeito.
Vieram as investidas pela internet. O repúdio de Nina continuava ali, firme e forte, até que o tédio avassalador de uma adolescente sem pai nem mãe por perto a fez ceder a um encontro. Quando chegou, seu corpo gritou: "Que horror, o que eu estou fazendo aqui?". Mas resolveu ficar. Queria ver se havia algo de interessante naquela troca.
E foi aí que a armadilha se fechou. De repente, viu naquele homem o pai que lhe faltava, alguém com gostos similares aos seus. Foi se apaixonando. Ele gostava de escrever — e, além de ser um maldito carioca cheio de lábia, escrevia bem. Era a velha e trágica história do homem encantador que finge acolher o seu pequeno caos. No fundo, não era sexual. Era uma necessidade desesperada de presença paterna. Mas é óbvio que um predador nunca veria a situação dessa forma.

# A Normalização do Terror#

Nina chorou na primeira vez em que esteve com ele. Ela queria um lar. Queria um amigo. Não queria se sentir estuprada mais uma vez — porque, sim, as pessoas vão normalizando os abusos cotidianos e, às vezes, cometem o erro fatal de confundir isso com amor. Começou a acreditar que gostava dele, mas a verdade é que Nina era apenas uma fugitiva da própria realidade juvenil: uma mãe envolvida com namorados problemáticos e que mal tolerava a presença da filha, um pai que morava em outro estado e um ensino médio com um ou dois amigos. Uma sensação colossal de inadequação e não pertencimento.
Antigamente, ela achava que esse deslocamento tinha a ver com a idade. Hoje, Nina sabe que faz parte de sua essência. E tudo bem ser assim. Ela prefere não caber em nada a se perder de si mesma. Mas, na época, era só uma menina lidando com a ausência do ser, sem saber nada sobre a vida.
Ele a apresentou aos amigos mais velhos. Nina sentiu que finalmente pertencia a algum lugar. Todos foram coniventes com aquela pseudo-história de amor — que, na verdade, era de terror. A mãe dela namorava um homem mau, agressivo; não sabia com quem Nina estava lidando e pouco se importava, tanto que arrendava o próprio quarto da filha. Nina caiu na rede do seu próprio maldito. Ele escrevia poesias e fazia desenhos sobre ela. Tinha gatos, ouvia as mesmas músicas. Ela foi se acostumando com aquela presença sufocante que a buscava o tempo todo.
Foi normalizando as agressões físicas. Ele dizia que aquilo era "normal entre casais", que os amigos dele também "caíam na porrada". Quem era Nina, uma menina assustada, para achar um absurdo?
Lembra-se de um dia em que ligou para um ex-namorado que tinha amado muito, o Walter. Chorava alto, sem saber o que fazer. Chovia muito e o maldito tinha acabado de agredi-la. Walter atendeu, perguntou se ela estava bem. Não estava. Mas como explicar uma bizarrice dessas para alguém que tem uma vida normal? Nina correu para a casa da mãe. No dia seguinte, o maldito apareceu com flores e um pedido de desculpas. Ela aceitou.

#Dez Anos de Prisão e a Escolha de Viver #

Nina trabalhava, tinha seu próprio dinheiro e vivia com aquele homem que, de vez em quando, se fantasiava de cidadão de bem. Então, ele a levou para outro estado. Longe de qualquer vestígio de família, os abusos — que hoje ela prefere nem mencionar — pioraram drasticamente. Mas Nina era uma mãe jovem, tinha um trabalho que a fazia feliz e algumas amigas; achou que seria capaz de suportar aquela merda de vida. Afinal, a sociedade adora dizer que as mães têm de suportar tudo pelos filhos.
Mas ela olhava para a família dele, para ele, para o filho... e sentia o asco voltar. Foram dez anos vivendo em um relacionamento que era uma prisão de segurança máxima.
Até que um dia o instinto de sobrevivência de Nina gritou: ela não queria mais aquilo. Decidiu que o filho ficaria com o pai. Já tinha suportado o insuportável. Aquele homem nunca pagaria pensão — tanto que a coagiu a assinar um documento de guarda compartilhada, como se Nina fosse uma mulher com a vida estruturada. Como se tudo o que ela tivesse comprado com o próprio suor não tivesse ficado trancado naquela casa.
Ela aceitou. Abriu mão de tudo. Guarda compartilhada. Nina nem sabia como faria dali para frente; só queria sobreviver aos dez anos que lhe foram roubados. Precisava sobreviver àquele homem.

# A Sobrevivente #

E ela sobreviveu.
No início, sem eira nem beira, a única opção foi arrumar as malas e voltar para a casa da mãe. Mas aquele teto nunca tinha sido um lar de verdade; era apenas um pouso temporário, um eco do passado do qual ela precisava escapar. Foi ali, naquele quarto arrendado, que uma faísca antiga acendeu no peito de Nina. Lembrou-se de quando pensava em ser freira só para viajar e estudar o mundo. Percebeu que não precisava de um convento para fugir. Precisava de coragem.
Focada em construir o seu próprio destino, ela trabalhou sem descanso. Guardou cada centavo, planeou em segredo e, pela primeira vez na vida, tomou uma decisão que era inteiramente sua, por si e para si mesma: resolveu arriscar tudo e ir morar para a Itália.
Cruzar o oceano foi o seu verdadeiro ato de libertação. Longe do julgamento alheio, das amarras da sociedade e do fantasma do seu carrasco, Nina finalmente respirou. Juntou o seu dinheiro, conquistou o seu espaço e escolheu, ativamente, ser feliz.
Mas sobreviveu longe do filho.
Durante um tempo, a dor e as lágrimas foram diminuindo, mas ainda sangra. Às vezes dói no peito de Nina estar no Velho Continente e ter deixado o menino para trás. Só que a verdade nua e crua é uma só: se ela não tivesse feito exatamente isso, se não tivesse cruzado aquele mar para se salvar, não seria a mulher forte que é hoje. Estaria morta.
Hoje, enquanto reconstrói a sua história sob o sol italiano, Nina só espera, do fundo de sua alma dilacerada, que o seu menino não se torne o pai dele.


Sta. Rochaaa

 
Autor
rebecarocha
 
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